sexta-feira, 25 de maio de 2007

"Rites Of Uncovering", Arbouretum (2007)

Praticamente desconhecidos do grande público, os Arbouretum são uma das mais brilhantes bandas da actualidade. A sua música não é fácil, os seus arranjos são complexos e as suas letras precisam de tempo para ser entendidas. E assim esperamos que eles se mantenham, longe do sucesso venenoso e dos percursos perigosos da música comercial. Liderados por Dave Heumann, genial cantautor, são todos músicos experientes, discretamente creditados no final de álbuns de artistas consagrados, como Bonnie 'Prince' Billy ou Cass McCombs. Lançaram dois álbuns, Long Live the Well-Doer, em 2004, e Rites Of Uncovering, saído no início deste ano. É este segundo registo que nos prendeu a atenção, que nos faz querer elevá-los a um estatuto que não podem ter, pois é da sombra que surge a sua mestria. Para os descrever oderíamos falar de Donovan, de Neil Young ou de Jimmy Hendrix. Poderíamos falar de tanta coisa, de tanta música - sendo certo que seria preciso recuar alguns anos -, mas pouco nos ajudaria a descrever este som marginal, que tem tanto de tradicional como de inovador.

Logo na primeira audição, Rites Of Uncovering soa a álbum de culto, uma obra densa e sombria, intrigante e magestosa. Um álbum de extremos, paradoxal, composto por temas tão frágeis quanto agressivos, tão calmos quanto flexíveis, mas que nem por um segundo se perde no seu longo, lento caminho. Um cruzamento entre a folk americana mais tradicional e um rock progressivo e experimental, envolvente, que se torna alucinante quando pincelado com o som eléctrico das guitarras e comovente na melancolia graciosa da voz de Heumann. Os solos instrumentais, presentes em praticamente todas as canções, umas vezes mais longos que outras, são absolutamente fundamentais. Exigem alguma paciência na escuta, mas acabam por ganhar uma imprevisivel vida própria, que nos dá uma viciante impressão de que qualquer coisa poderá acontecer. O melhor exemplo disso é The Rise, faixa com cerca de 11 minutos, que começa por ser uma canção épica e que acaba por se transformar num tema corrosivo, quase psicadélico, num processo improvisado de autodestruição que desestrutura todas as formalidades musicais. Este é um álbum que requer esforço, tempo e uma atenção redobrada, mas que já está, pelo menos neste plano, entre os grandes registos de 2007.

18/20


Rites of Uncovering, dos Arbouretum | Thrill Jockey
Edição: Janeiro de 2007
Faixas: Signposts and Instruments, Tonight's a Jewel, Pole Rider Blues, Ghosts of Here and There, Sleep in Shiloam, Mohammed's Hex and Bounty, The Rise, Two Moons.
Myspace: myspace.com/arbouretum

2 comentários:

Play Dead disse...

Vou seguir o conselho e ouvir. Depois passo por aqui para opinar.

João disse...

Aconselho vivamente a audição atenta deste Rites Of Uncovering (o álbum todo, claro)

No inicio custa um pouco a digerir, mas não tenho dúvidas que estamos perante um grande álbum.